Viagem de Natal: como evitar a ‘trombose do viajante’

Redação Guia na Mochila
26/12/2025 21:03
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Atualizado há 4 semanas
Ilustração médica mostrando a formação de um coágulo em uma veia da perna, causando trombose do viajante.

Por Que o Natal Exige Cuidados Especiais com a Circulação

O período natalino representa um dos momentos de maior movimentação nos aeroportos, rodoviárias e estradas brasileiras. Milhares de pessoas atravessam o país para reunir a família e celebrar as festas de fim de ano. Entretanto, essa alegria pode ser acompanhada por um risco silencioso: a trombose venosa profunda, conhecida popularmente como “trombose do viajante” ou “síndrome da classe econômica”.

Durante viagens longas, especialmente aquelas que ultrapassam quatro horas de duração, a imobilidade prolongada pode desencadear a formação de coágulos sanguíneos nas veias profundas das pernas. Este problema de saúde afeta aproximadamente um em cada mil viajantes em trajetos de longa distância, segundo dados médicos, e merece atenção redobrada neste período festivo.

Compreender os fatores de risco, reconhecer os sinais de alerta e adotar medidas preventivas simples pode fazer toda a diferença entre uma viagem tranquila e uma emergência médica. A boa notícia é que a prevenção da trombose do viajante é acessível e eficaz, exigindo apenas conhecimento e pequenas mudanças de comportamento durante o trajeto.

O Que Acontece no Corpo Durante Viagens Longas

A trombose venosa profunda ocorre quando um coágulo sanguíneo se forma nas veias profundas do corpo, principalmente nas pernas e coxas. Durante viagens prolongadas, diversos fatores se combinam para aumentar esse risco de maneira significativa.

A imobilidade é o principal vilão. Quando permanecemos sentados por horas sem movimentar as pernas adequadamente, o sangue tende a se acumular nas extremidades inferiores. O fluxo sanguíneo fica lento, criando condições ideais para a formação de coágulos.

Nos aviões, a situação se agrava devido à pressão reduzida na cabine e à baixa umidade do ar. Estas condições ambientais favorecem a desidratação e o espessamento do sangue. Além disso, o espaço limitado, especialmente na classe econômica, dificulta a movimentação e a circulação adequada.

Segundo o Ministério da Saúde, o risco existe em todos os tipos de transporte onde há imobilidade prolongada, não se restringindo apenas aos voos. Viagens de ônibus, carro e trem também podem desencadear o problema quando ultrapassam o período crítico de quatro a seis horas.

Quem Está Mais Vulnerável à Trombose em Viagens

Embora qualquer pessoa possa desenvolver trombose durante uma viagem longa, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade. Conhecer os fatores de risco permite identificar quem precisa de cuidados adicionais e, eventualmente, avaliação médica prévia.

Fatores de Risco Relacionados ao Perfil do Viajante

A idade avançada, especialmente acima de 60 anos, representa um fator de risco importante. O sistema circulatório naturalmente perde eficiência com o envelhecimento, tornando o retorno venoso mais desafiador. Pessoas obesas também enfrentam maior risco devido à pressão adicional sobre o sistema venoso.

Histórico pessoal ou familiar de trombose é um alerta vermelho. Quem já teve um episódio de trombose venosa profunda apresenta chances significativamente maiores de desenvolver novos coágulos. A predisposição genética, mesmo sem episódios anteriores, também aumenta o risco.

Gestantes e mulheres no pós-parto recente merecem atenção especial. As alterações hormonais da gravidez aumentam a coagulabilidade do sangue, enquanto o útero aumentado pressiona as veias pélvicas. O uso de anticoncepcionais hormonais ou terapia de reposição hormonal também eleva o risco de formação de coágulos.

Condições Médicas que Aumentam o Risco

Cirurgias recentes, especialmente ortopédicas como próteses de quadril ou joelho, representam um fator de risco elevado. Pacientes oncológicos e aqueles em tratamento quimioterápico também integram o grupo de maior vulnerabilidade, pois o câncer afeta diretamente o sistema de coagulação.

Segundo informações da reportagem do G1, condições como varizes, insuficiência cardíaca e doenças autoimunes que afetam a coagulação também colocam o viajante em situação de alerta. O tabagismo, frequentemente subestimado, danifica as paredes dos vasos sanguíneos e facilita a formação de trombos.

Reconhecendo os Sinais de Alerta Durante e Após a Viagem

A identificação precoce dos sintomas pode salvar vidas. A trombose venosa profunda manifesta-se principalmente nas pernas, podendo surgir durante a viagem ou até quatro semanas após o deslocamento.

Os sintomas clássicos incluem dor persistente na panturrilha, frequentemente descrita como uma cãibra que não passa. O inchaço surge geralmente em apenas uma das pernas, acompanhado de vermelhidão ou coloração arroxeada da pele. A área afetada apresenta sensação de calor e as veias superficiais podem ficar mais visíveis e proeminentes.

A complicação mais grave da trombose venosa profunda é a embolia pulmonar, que ocorre quando um fragmento do coágulo se desprende e viaja até os pulmões. Este quadro constitui uma emergência médica. Os sinais incluem falta de ar súbita e intensa, dor aguda no peito que piora com a respiração profunda, tosse com ou sem sangue, batimentos cardíacos acelerados e sensação de desmaio.

Qualquer um destes sintomas exige atendimento médico imediato. Não ignore sinais mesmo que pareçam leves, especialmente se você pertence a um grupo de risco. O diagnóstico precoce permite tratamento eficaz e previne complicações potencialmente fatais.

Preparação Estratégica Antes da Viagem de Natal

A prevenção da trombose do viajante começa antes mesmo de sair de casa. Algumas medidas simples na preparação podem reduzir significativamente os riscos durante o deslocamento.

Viajantes com múltiplos fatores de risco devem consultar um médico antes de viagens longas. O profissional pode prescrever anticoagulantes profiláticos ou recomendar o uso de meias de compressão graduada. Estas meias especiais exercem pressão controlada nas pernas, facilitando o retorno venoso.

Na escolha do assento, priorize posições que ofereçam mais espaço para as pernas. Assentos no corredor permitem levantar com mais facilidade, enquanto as poltronas nas saídas de emergência geralmente oferecem maior espaço frontal. Quando possível, considere o upgrade para classes com assentos mais espaçosos.

A vestimenta também importa. Opte por roupas confortáveis e não restritivas. Evite cintos apertados, calças justas e qualquer peça que comprima a região da cintura, virilha ou panturrilha. Sapatos confortáveis que permitam movimento dos pés são ideais.

Medidas Essenciais Durante o Trajeto

Durante a viagem, adotar comportamentos preventivos faz toda a diferença. A movimentação regular é fundamental e deve acontecer mesmo em espaços reduzidos.

Exercícios e Movimentação Constante

Levante-se e caminhe pelo corredor a cada uma ou duas horas. Mesmo uma caminhada breve de poucos minutos ativa a musculatura das pernas e estimula a circulação sanguínea. Durante voos, aproveite idas ao banheiro para alongar-se discretamente.

Quando sentado, realize exercícios simples a cada 30 minutos. Flexione e estenda os pés, apontando os dedos para cima e para baixo alternadamente. Faça rotações circulares com os tornozelos em ambas as direções. Eleve os joelhos em direção ao peito, quando o espaço permitir, e contraia os músculos da panturrilha repetidamente.

Conforme recomendações do Dr. Gustavo Amarante, especialista em cirurgia vascular, massagear levemente as pernas também ajuda a estimular o fluxo sanguíneo. Evite cruzar as pernas por períodos prolongados, pois esta posição comprime as veias e dificulta a circulação.

Hidratação Adequada é Fundamental

Manter-se bem hidratado é crucial para prevenir o espessamento do sangue. Beba pelo menos 250 ml de água a cada hora de viagem. Prefira água mineral e sucos naturais, evitando bebidas alcoólicas que promovem desidratação e reduzem a mobilidade.

O álcool também tem efeito sedativo, fazendo com que você se mova menos e permaneça em posições inadequadas por mais tempo. Reduza também o consumo de cafeína, que possui efeito diurético moderado. Bebidas gaseificadas em excesso podem causar desconforto abdominal, desencorajando a movimentação.

Uso Correto das Meias de Compressão

As meias de compressão graduada, com pressão entre 15 e 30 mmHg, são altamente eficazes na prevenção da trombose. Elas exercem maior pressão no tornozelo, diminuindo gradualmente em direção ao joelho ou coxa, favorecendo o retorno venoso contra a gravidade.

Vista as meias antes de iniciar a viagem e mantenha-as durante todo o trajeto. Escolha o tamanho adequado seguindo as orientações do fabricante ou de um profissional de saúde. Modelos modernos são confortáveis e discretos, disponíveis em diversas cores e estilos.

Cuidados Especiais Após Chegar ao Destino

A vigilância não termina quando o avião pousa ou o ônibus chega. O risco de desenvolver trombose venosa profunda permanece elevado por até quatro semanas após viagens longas.

Continue observando sinais e sintomas nas semanas seguintes. Qualquer manifestação de dor persistente nas pernas, inchaço unilateral ou dificuldade respiratória deve ser avaliada prontamente. Não subestime sintomas leves, especialmente se você possui fatores de risco.

Mantenha a hidratação adequada nos dias seguintes à chegada. Retome gradualmente suas atividades físicas habituais, pois o movimento continua sendo importante para a saúde circulatória. Quando em repouso, eleve as pernas acima do nível do coração para facilitar o retorno venoso.

Atenção Redobrada para Grupos Especiais

Gestantes viajando no Natal devem ter cuidado adicional. As mudanças hormonais e físicas da gravidez já aumentam naturalmente o risco de trombose. Consulte o obstetra antes de viagens longas, especialmente no terceiro trimestre. As medidas preventivas são ainda mais importantes neste grupo.

Idosos frequentemente acumulam múltiplos fatores de risco, como condições crônicas, uso de medicamentos e mobilidade reduzida. Familiares devem auxiliá-los na implementação das medidas preventivas e permanecer atentos a sintomas. Uma avaliação médica pré-viagem pode identificar necessidade de profilaxia medicamentosa.

Pessoas com histórico prévio de trombose venosa profunda necessitam planejamento cuidadoso. O risco de recorrência é significativo, justificando o uso de anticoagulantes profiláticos conforme prescrição médica. Pacientes oncológicos também requerem avaliação especializada, pois apresentam risco substancialmente elevado.

Esclarecendo Mitos Comuns Sobre Trombose em Viagens

Diversos equívocos circulam sobre a trombose do viajante, gerando tanto negligência quanto ansiedade desnecessária. É importante separar fatos de ficção para adotar comportamentos adequados.

Um mito comum é que o problema afeta apenas passageiros da classe econômica. Embora o espaço reduzido aumente o risco, a trombose pode ocorrer em qualquer classe. O fator determinante é a imobilidade prolongada, não o conforto do assento. Passageiros de primeira classe que permanecem imóveis por horas também estão vulneráveis.

Outra crença equivocada é que apenas voos extremamente longos, de 10 ou 12 horas, representam perigo. Na realidade, viagens a partir de quatro horas já elevam o risco. A Dra. Mônica Dias, cirurgiã vascular, esclarece que o risco aumenta progressivamente com a duração da viagem, mas não há um limite mínimo absoluto de segurança.

Muitos acreditam que apenas idosos desenvolvem trombose. Embora a idade avançada seja um fator de risco, jovens e adultos saudáveis também podem ser afetados, especialmente na presença de fatores predisponentes como uso de anticoncepcionais ou predisposição genética. A prevenção é importante para todas as idades.

Dicas de Bordo

“A prevenção da trombose em viagens não requer medidas complexas. Pequenas ações como caminhar regularmente, manter-se hidratado e realizar exercícios simples com os pés podem fazer enorme diferença. O fundamental é não permanecer completamente imóvel por horas seguidas.”

Dr. Rodolpho Reis, cirurgião vascular

Planejamento Inteligente Para as Viagens de Fim de Ano

O período natalino permite algum planejamento estratégico que facilita a prevenção. Considere agendar consultas médicas ainda em novembro ou início de dezembro, evitando a correria de última hora. Para quem tem fatores de risco, essa avaliação prévia é essencial.

Em viagens terrestres, planeje paradas regulares. A cada duas ou três horas, pare em postos de serviço ou áreas de descanso para caminhar alguns minutos. Estas pausas beneficiam não apenas a circulação, mas também a concentração e segurança de motoristas.

Viajando com a família, organize atividades que incluam movimento natural. Jogos que envolvam levantar para buscar objetos ou alongamentos coletivos podem ser divertidos e preventivos simultaneamente. Estabeleça lembretes periódicos para todos beberem água, transformando a hidratação em um cuidado compartilhado.

Evite horários de pico quando possível. Voos e ônibus menos lotados oferecem mais espaço para movimentação. Viagens noturnas, embora pareçam convenientes, podem resultar em períodos prolongados de sono em posições inadequadas, aumentando o risco.

Quando a Prevenção Requer Intervenção Médica

Para determinados perfis de viajantes, as medidas comportamentais podem não ser suficientes. Nestes casos, a profilaxia medicamentosa se torna necessária e deve ser discutida com um profissional de saúde.

Anticoagulantes em dose profilática podem ser prescritos para pessoas com histórico de trombose, pacientes oncológicos, gestantes de alto risco ou indivíduos com múltiplos fatores de risco combinados. A decisão sobre medicação considera o risco individual de trombose versus o risco de sangramento.

Meias de compressão graduada de grau médico, diferentes das meias comuns, podem exigir prescrição e medição adequada. Um angiologista ou cirurgião vascular pode orientar sobre o grau de compressão apropriado e o tipo mais adequado para cada situação.

Não utilize medicamentos por conta própria, mesmo que sejam de conhecidos ou recomendados informalmente. A automedicação com anticoagulantes pode causar complicações hemorrágicas graves. Sempre busque orientação profissional qualificada.

Viajando com Segurança e Tranquilidade

Compreender a trombose do viajante transforma conhecimento em proteção efetiva. As medidas preventivas são simples, acessíveis e cabem na rotina de qualquer viagem sem prejudicar o conforto ou a experiência.

O Natal é momento de celebração e reencontro familiar. Não permita que o desconhecimento sobre riscos circulatórios transforme esta alegria em uma emergência médica. Com informação adequada e ações preventivas consistentes, é perfeitamente possível viajar com segurança.

Lembre-se que a prevenção beneficia não apenas você, mas também seus acompanhantes de viagem. Compartilhe estas informações com familiares e amigos que também viajarão no período festivo. O cuidado coletivo amplifica a proteção e garante que todos cheguem ao destino com saúde.

Para viajantes de risco elevado, a consulta médica pré-viagem não é luxo, mas necessidade. O planejamento antecipado permite intervenções apropriadas e proporciona tranquilidade durante todo o trajeto. Investir algumas horas em avaliação profissional pode prevenir complicações que comprometeriam não apenas a viagem, mas a saúde a longo prazo.

Movimente-se, hidrate-se, permaneça atento e viaje com segurança. O destino final merece ser alcançado com saúde plena para aproveitar cada momento especial ao lado de quem você ama. Boas festas e ótima viagem!

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